Certo homem, chamado “Manuel” costumava olhar para a época do Natal como uma festa sem o menor sentido. Segundo ele, a noite de 24 de Dezembro era a mais triste do ano, porque várias pessoas se davam conta de quão solitárias eram, ou das pessoas queridas que haviam morrido.
Manuel pensava para si que era um homem bom. Tinha uma família, procurava ajudar o próximo, e era honesto nos negócios. Entretanto, não podia admitir que as pessoas fossem tão ingénuas a ponto de acreditar que um Deus havia descido à Terra só para consolar os homens.
Sendo uma pessoa de princípios, não tinha medo de dizer a todos que o Natal, além de ser mais triste que alegre, também estava baseado numa história irreal - um Deus se transformar em homem.
Como sempre, na véspera da celebração do nascimento de Cristo, sua esposa e suas filhas preparavam-se para ir à Missa do Galo. E, como de costume, Manuel resolveu deixá-las ir sozinhas, dizendo:
- Seria hipocrisia da minha parte acompanhar-vos. Ficarei aqui à espera da vossa volta.
Quando a família saiu, Manuel sentou-se na sua cadeira preferida, manteve o fogão de sala aceso, triste, ia pensando no seu menino que havia morrido e na mãe deste rebento que tanto havia amado.
Entretanto, passados uns minutos foi surpreendido por um barulho na sua janela, seguido de outro e mais outro. Achando que era alguém a tentar incomoda-lo Manuel pegou no casaco e saiu, na esperança de repreender o ou os intrusos.
Assim que abriu a porta, notou um bando de pássaros que haviam perdido o seu rumo por causa de uma tempestade, e agora tremiam na neve. Como tinham notado a casa aquecida, tentaram entrar, mas, ao chocarem contra o vidro, contundiram suas asas, e só poderiam voar de novo quando elas estivessem curadas.
"Não posso deixar estas avezinhas aí fora", pensou Manuel. "Como ajudá-las?"
Manuel foi então até a porta de sua garagem, abriu-a e acendeu a luz. Os pássaros, porém, não se moveram.
"Elas estão com medo", pensou Manuel. Então, tornou a entrar em casa, pegou em miolo de pão, e fez um trilho até a garagem aquecida. Mas a estratégia não deu resultado. Manuel abriu os braços, tentou conduzi-los com gritos carinhosos, empurrou delicadamente um e outro, mas os pássaros ficaram mais nervosos ainda, começaram a debater-se e andando sem direcção pela neve iam gastando inutilmente o pouco de força que ainda possuíam. Manuel já não sabia o que fazer.
- Vocês devem estar a pensar que eu sou uma criatura aterradora - disse, em voz alta:
- Será que não entendem que podem confiar em mim? Desesperado gritou:
- Se eu tivesse, neste momento, uma chance de me transformar em pássaro só por alguns minutos, vocês veriam que eu estou realmente a querer salvá-los!
Neste momento, o sino da igreja tocou, anunciando a meia-noite. Um dos pássaros transformou-se em anjo, e perguntou a Manuel:
- Agora entendes por que Deus precisava transformar-se em homem?
Aterrado e com os olhos cheios de lágrimas, ajoelhando-se na neve, Manuel respondeu:
- Perdoai-me anjo. Agora eu entendo porque devemos acreditar no Além e não repudiar ninguém pelas nossas infelicidades.
Façam deste Natal o melhor da vossa vida.
Beijinhos
lusosapien
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